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Nosso sexy não cabe numa roupa

Frida com sua família aos 17 anos, em fotografia capturada por seu pai – 1924

Desde o meu primeiro contato com o universo de Frida Kahlo, me embrenhei nas estampas maximalistas e penteados com flores naturais. Elementos inspirados no traje tradicional mexicano e que acabaram se tornando parte do imaginário que, assim como eu, você também deve ter construído sobre a artista.

Por isso, me peguei capturada na primeira vez em que olhei essa fotografia.

Nela, Frida aparece ainda adolescente, num típico retrato de família da época, vestindo o terno do pai. De olhar oblíquo – aquele, que Capitu nos ensinou bem – e desafiadora, ela já navegava para além dos limites que lhe foram apresentados.

Gostei da subversão, claro.
Mas o que cutucou mesmo foi a sensação de intimidade que a fotografia me despertou.

É curioso porque não encontrei ali as cores, as joias exuberantes ou quaisquer dos elementos que eu associava à femilidade da artista. Mas, ainda assim, foi dessa imagem que me lembrei quando sentei para escrever este texto.
Ela segue me despertando uma certa vontade de me sentir como Frida. Meio magnética.
Sempre me fascinaram mulheres que se sentem em casa com o próprio desejo.

Engraçado, né?

Como pode uma construção tão distante dos códigos tradicionais da feminilidade despertar essa vontade instintiva de me aproximar de mim mesma?
Rs. É assim que as categorias de gênero nos embaralham.

Corta para anos depois.

Pandemia, eu fazendo das tripas-coração para criar com o que tinha em casa. Esgotado meu acervo, abri o armário do meu companheiro em busca de algum desafio que me animasse a voltar para os looks.

Foi assim que garimpei uma camisa branca.
”E olha que não ficou mesmo interessante?”.

Lembro de ir e voltar algumas vezes no espelho, com uma sensação de me sentir mais próxima de mim, e ao mesmo tempo, mais distante do olhar dele. Confesso que, nos primeiros looks, foi difícil desenrolar com a amisa, mas a danada não saiu do meu armário.

Um acordo silencioso se rompe quando percebemos que sexualidade e aprovação não são sinônimos. E a sensação de se sentir inteira dentro de uma roupa só floresce se nos encorajamos a diferenciar essas duas coisas.

Nesses anos, tenho acompanhado clientes flertando com a possibilidade de se vestirem de forma mais sensual. A maioria ainda com hesitação, assumindo o desejo assim de ladinho. Mas já consigo perceber em seus apontamentos a possibilidade de autorização. Algo que, lá atrás, quando comecei, sequer aparecia nas nossas conversas.

Não sei se é a época ou se isso chega com a maturidade. Mas o fato é que estamos mais dispostas a desbravar caminhos outros do que se espera de nós.
Trajetórias que, por isso mesmo, convergem para o que cada uma aspira para si.

Existe algo profudamente sensual em abandonar a expectativa do Outro como mediadora da nossa imagem e passar a organizá-la em torno do nosso próprio desejo.

Por isso, me importa menos declarar que, para ser sexy, minha cliente precisa vestir uma camisa branca. Recorrer ao terno, usar fenda, acrescentar decote, gola alta ou pantalona.

Ao contrário, nas travessias do desejo, o avesso é que mais me interessa.
O que eu sempre tive vontade, mas nunca tive coragem.
O que sequer me permito assumir que anseio.

Se eu já descobri o meu próprio sexy? Às vezes, rs.
A camisa branca já foi um dia. Hoje, ainda me sinto com pantalona e bota. Sempre me amei com anágua. Tive coragem de deixar o cabelo crescer, contradizendo uma versão antiga que repudiava essa possibilidade.

O desejo se desloca, muda de forma e nos pede coisas diferentes ao longo da vida. Por isso, me parece que mais importante do que encontrar a “fórmula para parecer sensual”, é refinar a escuta do que emerge de dentro da gente.

Em pleno início do século XX, Frida já estava nos dando essa letra.

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